Passado, Presente e Futuro da Comunidade Quilombola de Araranguá
Passado
Presente
Futuro
Esta reportagem digital é dedicada aos moradores da Comunidade Remanescente de Quilombo Maria Rosalina. Todos os agradecimentos vão a eles e a todos os envolvidos na apuração. Produzido para o Trabalho de Conclusão de Curso do Semestre 2025.2 do Curso de Jornalismo da Universidade Federal de Santa Catarina por Natan Batista Balthazar com orientação da professora Isabel Colucci Coelho.
Passado
Presente
Futuro
As Muitas Histórias de Maria Rosalina: do Passado ao Presente
É preciso uma aldeia para se educar uma criança, e muitas crianças para criar uma aldeia
Para Maria Gorete, “crescer foi muito bom”. Ela relembra os dias de brincadeira, quando ela e outros jovens subiam nas goiabeiras de onde moravam. “A mãe chamava por uma porta e nós entrava pela outra, senão o pai pegava nós pela orelha”.
Legenda: Maria Gorete
Créditos: Há Vida Por Detrás do Muro
Brincavam de corda, bola, jogavam futebol. “O meu pai era técnico do nosso time de meninas. Nós tinha até time de mulher que jogava bola.”
Quando era nova, aos sábados, um grupo de jovens de seu município vinha até a comunidade em que vivia para brincar com as crianças. Eles gostavam de subir em um abacateiro no terreno de seu avô, embora ele não ficasse contente, já que criava galos que mordiam os meninos e meninas. Pulavam também o muro do “Seu Serrano” para aprontar com seus bois e cavalos. A mãe de Gorete, Maria Silésia, chamava no fim da tarde e ela voltava com os pés cheios de barro.
Essa época durou até os 9 anos. “Sabe assim, foi uma infância curta porque depois eu logo comecei a trabalhar de babá para ajudar a mãe, né? Mas foi muito bom.”
Aos 13, conseguiu um emprego como babá em São Paulo. Era para ter ficado seis meses, ficou cinco, chorava todos os dias para voltar. Os donos da casa onde trabalhava lhe davam um sanduíche ou uma banana, se comesse uma maçã, levava bronca. As cartas que escrevia para a mãe nunca chegavam.
Só ouviu da mãe novamente quando recebeu uma carta dela, estava pedindo ajuda para comprar o botijão de gás. Gorete não sabia que no dia que partiu para São Paulo, seu pai havia ido embora.
Ela voltou para casa, descrevendo o retorno como ir para o céu. Chegou ao meio-dia, nunca tinha encontrado comida tão boa quanto a da mãe.
— Ô, mãe, que tá comendo? - ela perguntou, sem se mostrar. — Quem tá aí? — A tua filha mais velha.
Desde então, sempre que saiu, voltou assim que pôde. Ela é neta de Otávio Tomé dos Santos, de origem índigena, sua família uma das primeiras a se estabelecer na Comunidade Remanescente de Quilombo Maria Rosalina, onde vivem até os dias de hoje.
Comunidades como a de onde veio Maria Gorete datam até o período colonial e imperial, quando milhões de pessoas dos diferentes povos do continente africano foram trazidos à força para o Brasil como escravizados. Ao fugirem das fazendas, engenhos ou minas onde eram obrigadas a trabalhar, estes homens e mulheres formavam comunidades próprias para viver de forma livre e autônoma.
Essas comunidades eram chamadas de quilombos.
Quilombos eram formados não só por pessoas fugidas da escravidão, mas também por desterrados, cidadãos em extrema pobreza e indígenas. Hoje, os descendentes dos habitantes originais dessas comunidades são chamados de remanescentes, e são, também, considerados quilombolas.
O Art. 68 da Constituição Federal de 1988 garante, até os dias de hoje, as terras das comunidades quilombolas:
“Aos remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos respectivos.”
Em 3 de junho de 2024, a Fundação Cultural Palmares (FCP), entidade pública vinculada ao Ministério da Cultura, concedeu ao quilombo urbano Maria Rosalina, em Araranguá, Santa Catarina, o reconhecimento de sua autodeclaração quilombola.
No município, do lado de fora dos muros do quilombo, a comunidade Maria Rosalina é conhecida por outro nome: Buraco Quente.
Há Vida Por Detrás do Muro
A 220 km ao sul de Florianópolis, capital do estado de Santa Catarina, está Araranguá, a maior das 15 cidades pertencentes à Associação dos Municípios do Extremo Sul Catarinense (AMESC). O projeto urbanístico do município lhe confere o apelido de “Cidade das Avenidas” pelas amplas ruas idealizadas pelo engenheiro Antonio Lopes de Mesquita. Seu hino lhe descreve como “terra de descanso mar e sol”, brindando os imensos arrozais que movem a economia local, além de ressaltar o Morro dos Conventos, cujas paisagens são o maior cartão postal da “Rainha do Sul Catarinense”.
Às margens do rio que dá nome à cidade, está o Centro do município, ponto de onde começou a se expandir até se tornar o pólo econômico da microrregião que faz parte. Esse bairro é cortado pela Av. Sete de Setembro que, ao seguir em direção norte, leva ao Bairro Vila São José e, dentro de um de seus quarteirões, à Comunidade Remanescente de Quilombo Maria Rosalina.
Lá dentro, existem 32 moradias que compreendem uma única comunidade que se autodeclara quilombola. Para chegar em Maria Rosalina basta virar à esquina do tradicional “Colégio Murialdo”, descendo a rua até encontrar, à esquerda, a entrada para o quarteirão. A passagem é composta por dois muros, um ao lado do outro, formando um grande corredor que dá acesso ao terreno. Em um deles, pode-se ver uma pintura colorida, expondo símbolos da cultura quilombola, as palavras “resistência” e “quilombo”, além de um punho erguido.
Legenda: Entrada da Comunidade
Créditos: Há Vida Por Detrás do Muro
A comunidade fica próxima da maior concentração urbana do município, mas não é toda a população araranguaense que chega até lá. Custódia Anacleto, a “Tia Tóda”, uma das vozes de liderança do quilombo, relata que é incomum a passagem de pedestres pela calçada em frente à comunidade.
“Eles nunca entraram lá dentro, mas eles julgam sem ver, né?”.
Legenda: Custódia Anacleto
Créditos: Há Vida Por Detrás do Muro
O nome pejorativo, “Buraco Quente”, vem das vezes em que pessoas de fora ouviram brigas dentro do quilombo. Relembrando essa origem, Custódia comenta que aqueles que passavam pelo lado de fora e ouviam os sons de discussão acalorada comentavam: “o buraco tá pegando fogo!”.
Os conflitos que deram nome ao espaço, aconteciam principalmente durante os chamados “bailes”, festas que ocorriam aos fins de semana com diferentes convidados. Na ocasião, era comum a interferência policial. Estes eventos eram sinônimo com o local no Século XX, porém, deixaram de acontecer com o passar das décadas.
A gestão municipal historicamente aponta uma situação de vulnerabilidade social no local e, entre os relatos dos moradores, se identifica falta de saneamento básico e esgoto a céu aberto, má distribuição de energia elétrica e um antecedente de operações antidrogas que resultam em violência. Como diz a Custódia: “deixam eles lá jogados, né?”. O argumento que justifica uma ampla falta de assistência, segundo ela, é a alegação de que lá haveria tráfico de substâncias ilícitas, “mas eles não fazem nada para mudar”.
Entre os moradores quilombolas de Maria Rosalina, existem 43 crianças e adolescentes, todos eles deixando diariamente o espaço para estudar nos colégios comuns. “Eles falam que brigam com eles na escola, chamam de negro”, conta Custódia. “Aí, eu tento conversar com eles, né? levar um pouquinho de amor para eles também. Para eles acreditarem que tudo vai dar certo.”
Custódia, assim como outras figuras que colaboraram para a criação desta reportagem, aponta a negligência do município em relação aos habitantes. O que eles relatam não é uma valorização de suas origens e sim, a negação dela por parte de representantes da gestão.
Este é um cenário que os habitantes, juntamente a membros do Movimento Negro Unificado (MNU), buscam transformar. Através de participações em movimentos estudantis no Campus Araranguá da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), entrevistas para as rádios e TV local e presença nas redes sociais, representantes de Maria Rosalina reivindicam o reconhecimento do real nome da comunidade.
Foi apenas recentemente que a gestão municipal se envolveu publicamente no processo de reconhecimento quilombola pleno da comunidade, ainda em andamento. Em 20 de agosto de 2025, em sessão ordinária na Câmara de Vereadores, o Procurador Geral do Município, Jorge Menezes, disse que o executivo foi pego de surpresa pela autodeclaração e a tramitação que ela envolve.
A experiência de apuração desta reportagem constatou a mesma surpresa sofrida pelo Executivo entre diversos outros cidadãos araranguaenses. Quando ouviam falar da comunidade, frequentemente os moradores do município faziam a mesma pergunta: “mas como assim um quilombo?”.
A antropóloga Raquel Mombelli, que é doutora em Antropologia Social pela UFSC e possui um longo histórico de trabalho com comunidades quilombolas, aponta que situações como essa, de apagamento das distinções raciais em Santa Catarina, são fruto de um projeto de manutenção da identidade do estado. Existe um mito comum de que o trabalho dos escravizados não faz parte da história catarinense, sendo que, na verdade, o que se identificava era uma forma de organização da escravidão diferente do resto do país. Os escravizados em Santa Catarina trabalhavam principalmente em funções domésticas e urbanas, ao invés das grandes plantações. A presença de quilombos no estado comprova esse passado e, a narrativa que nega essa parte de sua história, contribui para a falta de amparo dos descendentes das pessoas escravizadas.
Com medo da reputação da comunidade Maria Rosalina, a maioria dos habitantes da cidade nunca adentrou a rua que se estende cerca de 150m ao interior do quarteirão, com casas de madeira em suas extremidades. Entre as moradias, ruelas se dividem em diferentes caminhos para as residências de outros moradores em um espaço de aproximadamente seis mil metros quadrados. Em entrevista, questionada se qualquer um é bem-vindo dentro dos muros, Elizama da Silva de Souza respondeu: “vocês entraram aqui, não entraram?”.
Atualmente, o posicionamento oficial da gestão municipal, como disse Menezes na Câmara, é de que a situação legal do espaço está sob análise e não cabe a eles determinar o que é ou não um quilombo antes de uma conclusão definitiva. Menezes, em pronunciamento no dia 20 de agosto na Câmara de Vereadores, aponta que o Executivo presta toda a assistência possível aos moradores, assim como trabalha para aumentar a segurança no local e para melhoria social da comunidade.
Luciana Gonçalves Mina, coordenadora de educação quilombola do Centro de Educação Jovens e Adultos de Araranguá (CEJA), defende a autodenominação dos habitantes, explicando que é a relação de ancestralidade deles com os quilombolas que se estabeleceram naquele espaço desde o século passado que os torna remanescentes. Por essa definição, a Comunidade Maria Rosalina é indubitavelmente um quilombo e, portanto, se enquadra em um ordenamento jurídico que confere uma série de direitos a seus moradores antes mesmo que a delimitação da terra seja concluída.
Legalmente, Maria Rosalina apenas tem a autodeclaração quilombola e o processo vai além disso. O certificado emitido pela FCP conforme o 4º artigo do Decreto 4.88718 é apenas um título de reconhecimento, visto que a organização não certifica estas comunidades com base em uma avaliação de quem é ou não quilombola. Ao invés disso, respeita-se o direito à autodefinição, conforme estabelecido pela Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT).
A autodenominação é a primeira etapa de um processo de demarcação definitiva, que pode ser apresentada ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) para solicitar a titulação. Para isso é elaborado o Relatório Técnico de Identificação e Delimitação (RITD), uma coleta de dados em campo e junto a instituições públicas e privadas com o objetivo de definir os limites dos territórios a serem considerados quilombolas. É no processo de elaboração do RITD que se encontra a situação legal de Maria Rosalina.
Mesmo assim, a autoidentifação pela FCP já enquadra Maria Rosalina em uma série de direitos constitucionais, sendo oficialmente reconhecida pelo Estado como comunidade quilombola. A Constituição Federal, nos arts. 215 e 216, garante proteção às manifestações culturais afro-brasileiras e aos modos de criar, fazer e viver desses povos. Já a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que é retificada no Brasil e tem força de lei, assegura o direito de consulta prévia sempre que políticas ou projetos afetem diretamente suas terras, recursos ou modo de vida, independente da titulação.
A elaboração desta reportagem envolveu a participação de pessoas de dentro e fora dos muros, cada um com suas próprias narrativas, algumas delas conflitantes. A comunidade foi construída por muitas Marias, diversos Josés, contou com a permissão de uma das famílias mais conhecidas do município para se estabelecer e esteve lado-a-lado com os padres da Paróquia Nossa Senhora Mãe dos Homens. Hoje, sua voz é de muitas lideranças e sua história, fragmentada em décadas de tradição oral.
Uma Comunidade de Marias
O nome Maria Rosalina homenageia duas mulheres que ajudaram a construir a comunidade. Além da própria Maria Rosalina Anacleto, avó de Custódia - que hoje é presidente da Associação dos Remanescentes de Maria Rosalina - destaca-se também Maria Bernardina de Jesus, a “Mariazinha parteira”. Descrita pelo filho, José Luiz de Jesus, como uma mulher negra de pele bastante escura, estatura baixa e robusta com cabelos crespos, ela foi também benzedeira, cartomante e lavadora. Era uma figura de liderança, carregava uma faca na bota e frequentemente fumava seu cachimbo.
Mariazinha chegou à comunidade em 1948 e foi a primeira a entrar em contato com o proprietário formal do terreno, o vereador Maximiliano Henneman, que morava ao lado em uma casa de dois andares feita de madeira e que hoje já não existe. Na época, os povos remanescentes da região em sua maioria ainda não haviam se estabelecido no local e Mariazinha morava no Bairro Alto Feliz, próximo da localização onde hoje fica o Corpo de Bombeiros, cerca de 2 km da casa de Maximiliano.
Legenda: Mariazinha, dois filhos, e seu companheiro
Créditos: Arquivo/Zé Luiz de Jesus
Ela fazia diariamente o trajeto de ida e volta a pé em uma época em que havia poucas estradas, apenas areia e eucalipto, até chegar na residência onde trabalhava fazendo comida, limpando e cuidando dos filhos da família Henneman. O terreno que hoje constitui o quilombo havia sido adquirido por Maximiliano, que então sugeriu que Mariazinha se mudasse para o local junto da família para que não tivesse que fazer a caminhada diária. Ela se tornaria uma pessoa de confiança e quem mais transitava entre a comunidade e os limites da moradia dos Henneman.
Mariazinha tomava conta do casarão e cuidava dos filhos de Maximiliano, alguns deles se referindo a ela como sua “mãe preta”. Conforme mais pessoas chegavam ao terreno, era ela que o proprietário consultava sobre quem eram, tendo uma forma de controle. Ao entrar no quilombo, sua casa era a primeira à esquerda.
A antropóloga Raquel Mombelli aponta que o termo “mãe preta”, embora em casos como o de Mariazinha seja usado de forma carinhosa, remete ao passado de escravidão no país. Pessoas escravizadas exerciam diferentes funções, e entre elas havia as “amas de leite”. Uma teoria racial popular no século XVIII afirmava que o leite da mulher negra era mais forte e abundante, e, em função disso, era comum que as escravizadas que estavam amamentando seus próprios filhos fossem transferidas para a casa de seu senhor para amamentar as crianças da casa grande. Assim surgem as “mães pretas”, alcunha que seria utilizada para diferentes propósitos no país.
A própria Mariazinha não sabia bem suas origens, algo comum entre os habitantes mais antigos da comunidade. Lhe contaram que seu pai era baiano, um militar, tenente Gualberto de Lima, enviado ao estado para lutar na Revolução de 1930. Em Araranguá, conheceu Donária da Silva, mulher de origem portuguesa, com quem teve Mariazinha; ele teria deixado a mulher grávida antes de ir ao combate, partindo com o desejo de ter um filho homem que fosse soldado. Quando retornou e encontrou uma menina, saiu novamente sem jamais retornar. Donária viria a dizer à filha que ele morreu lutando.
Para Zé Luiz, filho de Mariazinha, ela herdou do pai a fé de matriz africana. Era da umbanda, sua casa repleta de símbolos de Iemanjá, Iansã e Ogum, tanto nessas imagens quanto nos santos Nossa Senhora dos Navegantes, Santa Bárbara e São Jorge. Tinha o dom da cartomancia e dos dados, além de incorporar um Preto-Velho, a quem atribuía o hábito do cachimbo. Para esta ocupação, não cobrava dinheiro, apenas doações.
Foi junto de Maria Hennemann, uma das filhas de Maximiliano, que ela aprendeu o ofício de parteira pelo qual ficaria mais conhecida. A princípio apenas ajudava, até assumir o papel dentro da comunidade em crescimento. As mulheres que davam à luz dentro do quilombo passavam três dias em sua casa sendo cuidadas, e ela foi reconhecida pelos partos de crianças que médicos comuns se negavam a fazer. Maria Silésia dos Santos, hoje a habitante mais antiga da comunidade, diz ter ganho cinco filhos com ela, e a mais velha, Maria Gorete, acredita que não teria nascido se não fosse Mariazinha, visto que era uma gravidez de risco.
Ela então viveria o resto da vida no terreno, sendo uma das pessoas que testemunhou sua transformação em uma comunidade constituída por remanescentes quilombolas, com permissão da família Henneman e do proprietário que se tornou uma figura querida para os moradores: “Seu Max”. Mariazinha passou de cuidar dos filhos de Maximiliano para cuidar dos netos; um deles, Antônio, lembra dela já como uma senhora que os tratava como família, configuração cultural frequente no Brasil de legado escravocrata, ele sendo amigo de infância de seu filho Zé Luiz. Quando criança, pegava a xepa dos charutos do avô e corria para a casa dela para que ela os usasse no cachimbo.
A maior fonte de renda de Mariazinha era como lavadeira. Segundo Maggy Henneman, neta de Seu Max, o avô a pagava por trabalho e também através de alimentos, descrevendo-a como uma “pessoa de confiança que ajudava lá em casa”. Na época, as Leis Trabalhistas não estavam estabelecidas como hoje; a CLT ainda era recente, instituída em 1943, e trabalhos informais ainda eram comuns. Assim, segundo relatos dos descendentes de Max Henneman, ela nunca foi considerada funcionária nem contou com pagamentos fixos mensais.
Mariazinha incentivou os sete filhos a ler e estudar, permitindo que no futuro eles tivessem acesso ao ensino superior. Zé Luiz recorda que na infância era um dos 31 engraxates que trabalhavam na cidade. Eles recebiam as caixas de sapato gratuitamente de dois comerciantes locais e lembra da vez que não lhes cobraram os livros que precisava para estudar, o que não foi do agrado da mãe, que fez questão de ir até a loja negociar uma forma de pagar pelos produtos: duas trouxas de roupa lavadas para cada. Ela detestava receber coisas de graça, dizendo ao filho que “se a esmola não te vicia, ela te mata de vergonha”.
Não era incomum que os jovens de Maria Rosalina começassem a trabalhar cedo; a maioria dos entrevistados nascidos no século XX relatam ter trabalhado antes da maioridade. Esse é um cenário usual em todo o estado até hoje, não apenas entre crianças de origem quilombola. Santa Catarina historicamente tem um dos piores índices de trabalho infantil do país. Segundo o FNPETI, em 2019, a unidade federativa contabilizava 55.668 crianças e adolescentes de 5 a 17 anos em situação de trabalho infantil, 4,9% do total do estado, acima da média nacional de 4,8%.
Com os anos de trabalho, o sabão caseiro feito com soda e gordura animal viria a causar calos doloridos nas mãos de Mariazinha, que teve de abandonar o ofício. Nos anos 90, já aposentada e na faixa dos 70 anos, ganhava menos que um salário mínimo da previdência, o que não chegava até metade do mês. Passou o resto da vida na comunidade e, quando faleceu nos anos 2000, o cenário ao seu redor já era bem diferente daquele que encontrou na década de 40.
“A minha vida é bastante difícil, a minha e a de todo mundo. A gente passa o dia na graça de Deus, porque se não tem, come o que tem. Se não tiver, toma uma caneca d’água, se tem uma cana vai e chupa, se tem uma laranja vai lá e chupa, se não tem faz um chá de folha de laranja e toma. O pobre sente fome, sente frio. É assim, a gente vive assim.” - Mariazinha, em entrevista concedida a António César Spricigo em 1993.
Origens Quilombola
“Local onde um grupo de escravizados fugidos se escondem”. Essa é uma concepção comum da idéia de quilombo no Brasil, que remete a um passado remoto ligado à escravidão, porém essas comunidades não existem apenas nos séculos anteriores ou sequer são locais desconectados da realidade atual.
A formação dessas comunidades apresenta mais origens do que apenas a abolição formal da escravidão em 1888. Mesmo após essa data, novos quilombos foram formados a partir de pessoas que foram libertas pela Lei Áurea ou seus filhos e netos. O processo de marcação da identidade quilombola se dá através da transição de pessoa escravizada para camponês livre, e os grupos formados então naturalmente atraíam mais habitantes.
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em 2022, Araranguá possuía 71.922 habitantes, todos livres perante a lei. Já em 1866, esse número era bem menor: 4.238 habitantes, porém, apenas 3.376 possuíam liberdade, com os outros 907 (quase 25%) sendo pessoas escravizadas.
Esses dados foram levantados pelo professor de geografia e residente de Araranguá, César Spricigo, através de inventários de bens deixados pela população da Freguesia do Araranguá entre os anos de 1840 e 1900. Na época, a extensão do município se dava até a cidade de Laguna, que hoje compreende parte das microrregiões da AMESC e da Associação dos Municípios da Região Carvoeira (AMREC). A freguesia, na época conhecida como Nossa Senhora Mãe dos Homens, foi criada em 4 de maio de 1848 pela Lei Provincial nº 272, tendo uma extensão de mais de 100 km.
Legenda:
Créditos: Do Plano Urbano ao heliponto: notas sobre o processo histórico das transformações urbanas em Araranguá/SC (1886-2017), por Richard Vieira Ronconi* Josiel dos Santos (2021)
Cerca de um terço (31%) dos habitantes de Nossa Senhora Mãe dos Homens dispunham de escravos. Oficialmente, a posse de pessoas escravizadas deixou de ser permitida a partir de 1888, oito anos antes da Freguesia se emancipar de Laguna através da Lei Provincial nº 901/1880, que elevou o povoado às margens do Rio Araranguá à sede da Freguesia que a partir de então levaria seu nome.
Os 907 escravizados que, uma vez libertos em 1888, encontraram diferentes formas de organização na microrregião do Vale do Araranguá, fizeram parte da formação de comunidades distintas na região. Foi a partir daí que surgiu também a Comunidade Quilombola São Roque, em Praia Grande, município que se emancipou de Araranguá em 1967. Com uma colonização de matriz italiana e alemã, Araranguá tem, segundo o Censo de 2022, 1.971 pessoas autodeclaradas pretas (2,8%) e 8.775 pardas (12,2%), além de 78 indígenas (0,1%).
Em Timbé do Sul, que também deixou de ser parte de Araranguá em 1967, existiu uma comunidade conhecida como “Morro da África”. O território do município hoje faz divisa com Cambará do Sul e São José dos Ausentes, os dois já parte do Rio Grande do Sul, estado que aboliu a escravidão quatro anos antes do resto do país, em 1884.
Em entrevista concedida a César Spricigo em 1993, o então morador mais antigo do que na época era conhecido como “Buraco Quente”, Otávio Tomé dos Santos, recordou que os primeiros habitantes do terreno que viria a se tornar o quilombo chegaram por volta de 1930, quase 20 anos antes de Mariazinha Parteira. A região foi descrita como praticamente vazia, e o primeiro a se instalar no local foi José Marcília, seu sogro, que precedeu a formação da comunidade.
O nome Buraco Quente começa a ser citado a partir de 1935. Com a chegada da Congregação de São José em Araranguá, que se estabeleceu próximo à comunidade em 1955. Os chamados “Josefinos de Murialdo”, grupo religioso que fundou o colégio ao lado, sugeriram que a comunidade fosse rebatizada para “Vila São José”, para remover o teor pejorativo. O nome não foi aderido pela comunidade e acabou dando origem ao bairro que faz divisa, futuramente a denominação “Vila Samaria” seria adotada, antes de ser abandonada em prol de Maria Rosalina.
Na época, Araranguá era local de passagem para Cricíuma, município que foi seu distrito até o ano de 1925 e se encontrava em rápido crescimento em função da exploração de carvão na região, atraindo um grande fluxo de pessoas. Os viajantes frequentemente faziam parada na “Casa dos Pobres”, uma instituição municipal que abrigava pessoas desabitadas e se localizava a cerca de 100 metros de onde hoje vivem os remanescentes, no mesmo quarteirão. O terreno do quilombo já pertencia a Maximiliano Hennemann e habitado por Mariazinha, assim alguns dos que passavam por lá acabavam ficando, até que a instituição foi desativada pela prefeitura, deixando muitos sem lugar para morar além da comunidade.
Entrevistar pessoas envolvidas na origem do quilombo revela uma formação variada, fruto da soma de diferentes vivências, mas também a dificuldade em determinar certos acontecimentos com precisão. O filho de Mariazinha, Zé Luiz, conta que sua mãe era filha de um tenente baiano, porém, ao ser entrevistada por César Spricigo antes de falecer, a própria acreditava que o pai era carioca.
O professor César atribui estas incongruências narrativas à forma de vida difícil dos moradores. “Na luta que imprimiram para sobreviverem, necessitavam apenas trabalhar para que não perecessem. A vida lhes era tão dura que não propiciava momentos para conversarem sobre os seus”. Em entrevista que lhe foi concedida por Diná de Assunção, em 1993, a moradora da comunidade contou: “eu não sei quase nada dos meus pais, só sei que ele era feitor de estrada. Ele veio, parece, de Minas Gerais, lá do norte”.
“Ao que tudo indica, os moradores do ‘Buraco Quente’, de origem negra, possuem muitas ligações em comum: certamente todos tiveram ancestrais provenientes da África, que eram trazidos para o Brasil a fim de serem utilizados como mão-de-obra escrava”, conclui o professor. Diversos habitantes, mesmo não conhecendo a história de seus pais, acreditam em sua maioria que vieram do mesmo lugar: o Morro da África, em Timbé do Sul, incluindo a família de Custódia, neta de Maria Rosalina. Hoje, aquela comunidade já não existe mais, e registros de sua existência existem apenas através da oralidade geracional dos filhos e netos de seus habitantes.
Referências a um “Morro da África” em Santa Catarina são encontradas apenas em uma comunidade no norte do estado, em Jaraguá do Sul, 380 km de Araranguá. O único registro bibliográfico que esta reportagem foi capaz de localizar eram as pesquisas do professor César Spricigo, cujo nem todas estão disponíveis publicamente e foram cedidas para a apuração deste texto.
Um Terreno, Uma Família
Foi no ônibus, em 1945, que Maximiliano Henneman conheceu Carlos Belinzoni, por acaso. Membro de uma das famílias mais influentes de Araranguá. Carlos há anos comerciava farinha de mandioca no município, e junto do filho, Walter, administravam um açude e moinho, investimento que na época dava os primeiros passos. Em uma conversa casual, Maximiliano revelou seu ofício de “guarda-livros”, hoje contador, e recebeu o convite dos Belinzoni para vir até o município trabalhar com eles por um período de teste de seis meses, caso não gostasse, poderia seguir seu caminho original para Anapólis. Seu Max acabou ficando.
Legenda: Maximiliano Henneman
Créditos: Arquivo/Antônio Henneman
Nascido em Lajeado, Rio Grande do Sul, em 1904, Maximiliano morava em Porto Alegre, onde vivia com a esposa, Judith, e seus 10 filhos. A convite dos Belinzoni, partiu para Santa Catarina com o intuito de adquirir terras em que a família pudesse morar. A esposa veio depois, sem as crianças, para conhecer a cidade e o terreno onde seria a casa, foi só com a aprovação dela que, após três anos, em 1948, os filhos viriam morar no casarão que dava fundos para onde hoje está Maria Rosalina.
Maggy Henneman, filha de Maximiliano, conta que quando o pai comprou o terreno, um pequeno grupo de pessoas já vivia ali, à revelia do proprietário anterior que pretendia vender o espaço e, no processo, expulsar a todos. Maximiliano então decidiu adquirir o local, já como um projeto social, permitindo que as pessoas que lá estavam permanecessem.
“[A Mariazinha] foi trabalhar como empregada da casa do meu avô e ele permitiu que daí, pela proximidade, ela morasse ali”, conta o neto, Antônio. “E depois outras pessoas, como era uma área razoável, solicitaram permissão para também ali se instalarem e ele foi permitindo.”
Foi com Mariazinha já empregada pela família que mais vieram, todos a partir do consenso dela e de Maximiliano. Chegaram Maria Rosalina e as parentes, que logo passaram a compôr a formação da comunidade. Em sua maioria eram lavadeiras, cada uma era dona de um poço, onde os filhos de Seu Max brincavam com as outras crianças.
Maggy lembra de trabalhar na terra e brincar no pomar plantado pelo pai, que tinha todas as frutas que podiam imaginar. Conta que eram bastante livres para ir e vir, conhecendo todos os vizinhos e as outras crianças.
Maximiliano estava sempre com seu charuto e, segundo Antônio, era bastante rígido com a família, “se eu pegasse dinheiro do meu avô tinha que devolver no mesmo dia”. Sua rigidez não se estendia para a esposa, “que é quem mandava nele, né? Bem entendido, não adianta dizer que é um grande homem se não tem uma grande mulher do lado”.
“Veio uma série de moradores, começaram a se estabelecer até que meio que lotou, né? Sem oposição dele, pelo contrário, com a permissão dele enquanto vivo e depois sem oposição dos familiares, dos descendentes dele, porque sabiam que aquilo ali era uma obra dele. Deles, dele e da avó. Ele não faria sem a vó autorizar.”
Judith é descrita pelos parentes como bastante culta, “o que ele gastava em charuto, ela gastava no cinema”. Antônio lembra dela sendo carinhosa, tanto com a família quanto com os moradores da comunidade. Fazia o café bastante quente para que as crianças não tomassem com pressa e lembrassem de comer pão para não ir brincar de barriga vazia. Já nos almoços de domingo, o refrigerante desta família de origem alemã era vinho com água e açúcar.
O pomar da infância de Maggy, na de Antônio tinha se tornado uma grande plantação em que ele e o primo Giovanni corriam do avô quando o acordavam de seu descanso. Maximiliano pegava uma vara de marmelo para assustar as crianças, mas não conseguia acertar nenhuma, já que sempre corriam para o mato. “Sai da macega”, ele gritava com frequência, por isso Giovanni acabou ficando com o apelido: macega.
Antes da formação do Colégio Murialdo, os Josefinos, grupo religioso que volta-se principalmente para bairros populares e periferias de centros urbanos, frequentemente repousavam na casa da família Henneman enquanto a escola ainda não existia. Quando chegaram em 1952, os padres identificaram a necessidade de um ginásio para a juventude, algo que os membros da paróquia e administração municipal buscaram remediar com doações de espaço para construção de uma instituição de ensino. Max, que também era proprietário de um terreno do outro lado da rua de Maria Rosalina, foi um dos doadores. Assim, em 1955, o Ginásio dos Padres seria fundado.
Segundo os netos, Maximiliano era uma pessoa de muita fé, em sua estatueta de Nossa Senhora, deixava uma flor fresca todos os dias. Rezava diversos terços diariamente, além de fazer rezas para pessoas doentes dizendo “eu vou rezar, mas você tem que rezar também.” Hoje, Antônio atribui sua crença ao avô, tendo herdado dele a estatueta e o hábito de orar o terço.
Era também muito ligado à política e, segundo o neto, se alinhava fortemente com Getúlio Vargas, fundador do Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), além de presidente e ditador do país de 1930 a 1945 e entre 1951 e 1954. Na eleição de 1966, Max foi eleito vereador, sendo o único de oposição. A candidatura foi a convite do antigo Movimento Democrático Brasileiro (MDB) para substituir outro candidato assassinado três meses antes. Ele, junto de gestores do município, criaram um projeto de doações fixas a partir de um cadastro dos habitantes em vulnerabilidade social. Maggy conta que foi por causa da influência do pai e o constante trabalho com comunidades empobrecidas , não apenas do quilombo, que se tornou Assistente Social. Max fez um mandato completo, Antônio atribui o respeito que tinha na cidade como o motivo que os militares da ditadura não o perseguiram.
Judith faleceu em 1984, antes do marido. O neto Giovanni conta que, durante a divisão de seus bens, houve uma movimentação da comunidade com medo de que fossem despejados do terreno como parte da herança, rumor que ele acredita ter sido criado por “gente de fora” que desconhecia a história do quilombo com a família. Esse foi um momento de mágoa para Maximiliano, que sentiu-se ofendido pela ideia de que faria alguma coisa contra os habitantes ou que seus familiares tivessem alguma intenção de fazê-lo, “coisa que não se passou por nenhum dos herdeiros”.
O desconforto foi solucionado através do contato com os padres do Colégio Murialdo, que garantiram para comunidade que não seriam despejados. Max contou aos netos a chateação com o ocorrido e os orientou: “aqui ninguém mexe com meus negrinho”. Quando faleceu em 1985, os herdeiros seguiram a orientação.
Hoje, membros da comunidade lembram carinhosamente de Maximiliano. “O seu Max era uma bela pessoa. Às vezes faltava água, nós ia lá pegar na casa dele. E ele ajudava, né? Pedia um dinheirinho, ele dava”, descreve Maria Silésia.
“Falar de meu avô me deixa arrepiado, tamanho meu carinho por ele”, Antônio conta. “Ele sempre tratou com muito respeito tanto a Mariazinha quanto às demais pessoas que vieram morar ali.”
Os netos recordam também a época que transitavam livremente a comunidade. Contam de serem bem tratados e descrevem o quilombo como “uma comunidade de gente trabalhadora”, porém, Antônio diz que mesmo antigamente, a percepção de Araranguá com os habitantes não era de respeito.
Para a antropóloga Raquel Mombelli, casos de “ajuda” entre pessoas pretas e brancas no século passado eram envoltos em suas próprias complexidades. Aqueles que eram carentes nas questões de condição de vida e trabalho muitas vezes precisavam encontrar “aliados” para sua própria sobrevivência, como a figura de Maximiliano. Cenários como esses devem ser analisados de acordo com o contexto e mentalidade da época, Raquel aponta que pessoas como “Seu Max” provavelmente agiram da forma que acreditavam ser correto em seu tempo, oferecendo suporte da forma que podiam e julgavam apropriado.
A casa da família Henneman já não existe mais e o contato dos familiares diminuiu. Antônio quando encontra conhecidos de lá, diz que senta para conversar, e alguns ainda mantêm vínculos, embora a maioria dos filhos de Maximiliano já tenham falecido e os bisnetos sequer conheceram o casarão em que dividiram espaço com o quilombo.
“Foi um caminho natural. Ele foi deixando morar e foi deixando passar o tempo e era a vontade dele. Nós percebemos, os herdeiros do meu avô perceberam isso para não se opor”, Antônio conclui. “Então nunca houve conflito da família Hanneman com os moradores dali. Nunca. Se alguém falar diverso disso, olha, manda falar comigo”.
“O Buraco Tá Pegando Fogo!”
Rosa Maria Anacleto nasceu e cresceu na Comunidade Remanescente de Quilombo Maria Rosalina, aos 60 anos, buscando melhores condições de vida, se mudou do local. Este não é um caso incomum, com vários dos habitantes originários deixando a comunidade uma vez que adquirirem melhores condições financeiras.
Legenda: Rosa Maria Anacleto
Créditos: Há Vida por Detrás do Muro
Eles contam que o vínculo emocional nunca some, Rosa visita a antiga casa com frequência. “Uns saíram e os outros continuam aqui também. Mas a gente sempre vem, né? Quando eu posso eu tô sempre aqui junto com a com a Tóda. Tem parente ainda, né? A gente tem parente aqui ainda.”
A razão de deixar o espaço é sempre a mesma: as condições de vida. “Antigamente não tinha esgoto. Antigamente não tinha água encanada, tinha um poço aqui no meio. Então quem foi crescendo que pôde sair, saiu, dos mais velhos ficaram, né? Mas tem os que morreram também.”
Dos tempos de infância, ela lembra com carinho. “A gente era bem feliz, assim, quando tinha todo mundo junto, né?”, diz, compartilhando uma recordação de que os habitantes da comunidade eram, em geral, família, seja de sangue ou de coração.
Rosa foi uma das muitas que tiveram de deixar a vida de criança cedo. Começou a trabalhar com sete anos, como doméstica, para ajudar em casa. Relembra que sempre foi difícil encontrar serviço em função do preconceito que sofriam por serem do “Buraco Quente”.
Ela é irmã de Custódia, as duas, netas de Maria Rosalina. A irmã descreve a avó como “uma mulher muito guerreira, ajudava todo mundo ali dentro. Ela fazia parto, ela benzia e ela dava remédio”.
As duas são filhas de Elvira, lavadeira que trabalhou com “Dona Zélia”, filha de Maximiliano, assim como as duas, que foram empregadas por membros da família Henneman. Da juventude, lembram das mulheres principalmente como profissionais de limpeza e os homens na construção cívil e plantio.
A maioria casou-se jovem, antes dos 20, já que facilitava na divisão de renda. Os mais antigos da comunidade, como lembra Custódia, eram figuras conhecidas que faziam o papel de orientar os mais novos. Destes, destacavam-se as benzedeiras, que eram o principal motivo de habitantes do resto do município fazerem visitas.
Muitos receberam bolsas de estudo no Ginásio do Colégio Murialdo, que tinha um extensivo programa de assistência social, embora não garantisse a permanência destes estudantes. Na geração de Custódia, poucos conseguiram se formar, por serem alvos de racismo. “A gente entrava lá dentro a ‘negra do buraco quente’. Era essas coisas feias que diziam pra gente. Ai era chamado de negro, ou ‘tu mora no buraco quente’, ai a gente não ia mais pra aula.”
Custódia conta de uma juventude mais rebelde ao se deparar com casos de racismo nas instituições de ensino, “a bofetada comia”. Hoje, ela diz que “o que eu fazia quando era pequena lá na escola, eu não passei nem para os filhos e nem para os da comunidade, né? Porque eu achava errado”.
A vida toda, foi babá e faxineira e diz ter orgulho disso, citando que as pessoas que trabalhou foram boas para ela. Porém, as filhas não pretendem seguir o mesmo caminho, então “eu digo: vão estudar, né? Porque a mãe não teve a oportunidade de estudar porque também era meia sapeca, né? Aí vai fazer o quê? Vocês aproveitem!”.
Ela é também uma das que mantém a fé de matriz africana viva, tendo aprendido da mãe a prática de benzedeira e incorporação. Ela lamenta o falecimento dos habitantes mais antigos, muitos que não passaram os ensinamentos adiante, “tinham mais fé”. Com isso, a religião tradicional foi abandonada pela maioria dos habitantes em favor do evangelicalismo, devido a diferentes influências externas.
Maria Silésia, hoje com 75 anos, é a mais antiga moradora. Trabalhou em uma uma antiga metalúrgica do município e agradece por ter conseguido uma boa aposentadoria em função disso. Antes, lembra que trabalhavam à noite para comer durante o dia.
Em sua idade avançada, gosta que hoje já não haja mais tanta “bagunça” quanto antigamente, referindo-se aos conflitos. Custódia tem uma experiência parecida, relembrando que no século passado, o maior problema que tinham internamente era a “cachaça e as brigas”. Esses relatos remetem a origem do nome “Buraco Quente”, relacionados às festas que por vezes saiam do controle.
Geralmente aos sábados, aconteciam os chamados “bailes”, eventos comuns antigamente. De organização interna, acontecendo em casa alternadas, também conhecidos como “bailes das empregadas”, reuniam convidados, em sua maioria homens, contando com muita bebida e frequentemente terminando em brigas. Tais eventos eram conhecidos em toda a cidade e não era incomum que outras pessoas viessem buscando participar, aqueles que não tinham convite eram tratados com hostilidade, resultando em intervenção policial, resultando em uma associação com a violência no local.
De fora da comunidade, Antônio Hennemann diz que a violência era mais ocasional: “tinha briga entre eles eventualmente, né? Uma briga, uma cachaça a mais, né? Mas não era uma coisa assim, não, não era um lugar violento”.
Porém, a percepção era o suficiente para acarretar uma série de violências contra os habitantes. Os maus atos de membros isolados levavam ao julgamento de todos os habitantes, como conta Irene da Silva, sobre seu irmão “Nego Claúdio”.
“Mesmo que não fosse ele as pessoas iam lá e mexiam, eles vinham pegavam o Cláudio e davam, batiam. Uma vez botaram o Cláudio no pau-de-arara, botaram ele pra beber mijo ao invés de água, pedia comida eles deram carocha. Então, assim ele sofreu quantos anos, pagando por coisas que ele não fez.”
Sobre os bailes, Otávio Tomé dos Santos, antigo morador, hoje já falecido, contou a seguinte história para o professor César Spricigo.
“Quando foi de madrugada, veio a polícia, chegou na porta e quis meter o pau em um preto que tinha ali, um tal de Atidori que saiu pra rua e já pegou o pau. Quando chegou o soldado, ele arrancou o revólver, chegou uma mulher, meteu a enxada no revólver, avançaram no soldado. O soldado saiu aqui perto da minha casa, arrebentou três fios de arame, quando saiu lá na rua, saiu pelado só de cueca. Pegaram boné, pegaram farda, pegaram tudo. No outro dia foram entregar pro juiz, um tal de ‘Pé-Grande’, aí o juiz disse assim:
— Aonde aconteceu isso?
— Foi no Buraco Quente.
O juiz deu uma risada, porque eu tava trabalhando ali pertinho dele, eu era dono do baile, né? Chegaram para o juiz para entregar o capacete, o revólver quebrado em dois pedaços, um 38. Isso fazia uns dez anos que eu era casado, por volta de 1950, e depois disso o juiz disse pro soldado que apanhou no baile:
— O que tu tinha que fazer lá, se tu não fosse chamado? Eu mandei um soldado lá para tomar conta da brincadeira dos homens, e tu fosse lá pra dar uma de bacana quebrar tudo?”
Hoje, alguns dos moradores relatam que, com o aumento da perseguição e presença do tráfico de drogas, os bailes deixaram de existir, ou sequer eventos culturais. “Acabaram com a nossa vila, não tem uma festa mais”, diz Maria Gorete.
Muitos relatam que o real aumento da violência aconteceu anos depois da época em que os bailes eram comuns. A maioria acredita que foi nos anos 90, após o falecimento de Maximiliano, quando nenhuma liderança política deu o apoio necessário ao local. Sem respaldo institucional, as condições sociais pioraram e a chegada de figuras desconhecidas resultou na entrada do tráfico de drogas.
O aumento da criminalidade está diretamente ligado a fatores sociais e falta de amparo institucional. Este é um fato apontado por uma pesquisa publicada em 2022 pela Scientific Reports, que analisou o processo de crescimento de cerca de 1.900 crianças brasileiras em um período de sete anos. Os resultados concluíram que uma medida ampla de pobreza, incluindo baixa escolaridade, pouco poder de compra e acesso precário a serviços básicos, foi o único fator relacionado à criminalidade que poderia ser prevenido. A pesquisa aponta “a importância da pobreza na condenação criminal,visto que ela inclui diversas privações, e sugerem que intervenções de erradicação da pobreza durante a infância podem ser cruciais para a redução da criminalidade entre os jovens brasileiros”.
É importante lembrar que, segundo o IBGE, Aproximadamente 59 milhões de brasileiros vivem em situação de pobreza e 9,5 milhões em extrema pobreza, além de que, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU), mais de 70,3 milhões sofrem algum grau de insegurança alimentar, e 90 milhões não têm acesso à coleta de esgoto. A insegurança alimentar, além da falta de saneamento básico, são todos fatos identificados na comunidade.
Os dados mostram que o desamparo social presente nas periferias aumenta a incidência de crimes, uma realidade que afeta a Comunidade Remanescente de Quilombo Maria Rosalina e poderia ser evitada. O preconceito associado ao espaço é perpetuado pela própria negligência com ele, corroborando para a imagem negativa que tem na atualidade. Como Rosa conta, muitas das famílias originárias ainda vivem no terreno e estão sujeitas às consequências de sua realidade.
Mesmo assim, durante toda a apuração desta reportagem, que esteve em contato com pessoas de dentro e fora da comunidade, debatendo o momento presente e fatos históricos, a violência foi vista como um elemento mais repercutido do que factual. É importante lembrar que, segundo o censo do IBGE, uma moradia no Brasil tem em média 2,79 habitantes, e, considerando a falta de uma pesquisa específica para Maria Rosalina, as 32 casas da comunidade abrigariam cerca de 89 pessoas por essa métrica, sendo 42 crianças, sem contar os idosos. Se subirmos esse número para 100 pessoas, ainda seria impossível dizer que toda essa centena fosse a maior responsável pelo crime praticado em um município que contava com 75.597 habitantes em 2024.